Goiás, 3 de fevereiro de 2026
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Diversidade

Desejo, violência e invisibilidade: o paradoxo brasileiro em dados sobre pessoas trans

Brasil lidera assassinatos de pessoas trans enquanto figura entre os maiores consumidores de pornografia trans no mundo

Homem acessando sites enquanto a mulher dorme ao seu lado. (Foto meramente ilustrativa)

O Brasil ocupa, há quase duas décadas, uma posição que expõe uma das contradições sociais mais profundas do país: é, simultaneamente, o território que mais registra assassinatos de pessoas trans no mundo e um dos maiores consumidores globais de pornografia trans. O cruzamento desses dados, provenientes de organizações de direitos humanos e relatórios de grandes plataformas de conteúdo adulto, revela um cenário marcado por violência extrema, hipocrisia social e apagamento institucional.

A coexistência entre desejo privado e violência pública não é acidental. Ela expressa um modelo social que consome corpos trans como fetiche, mas rejeita suas existências no espaço público, nas políticas de saúde, na educação e na proteção estatal.

Violência persistente e estrutural

De acordo com a nona edição do Dossiê de Assassinatos e Violências Contra Travestis e Transexuais Brasileiras, elaborado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil segue como o país com mais assassinatos de pessoas trans no mundo. Em 2025, foram registrados 80 homicídios, número inferior ao do ano anterior, mas insuficiente para tirar o país da liderança global.

A redução percentual, de cerca de 34% em relação a 2024, não indica melhora estrutural. O próprio dossiê aponta o aumento das tentativas de homicídio, evidenciando que a violência permanece ativa, apenas não consumada em todos os casos. A queda, segundo especialistas, também pode estar relacionada à subnotificação, à retração da cobertura midiática e à ausência de registros oficiais sistemáticos por parte do Estado.

A violência se distribui de forma desigual pelo território nacional. A Região Nordeste concentrou o maior número de assassinatos, com 38 casos, seguida pelo Sudeste (17), Centro-Oeste (12), Norte (7) e Sul (6). Ceará e Minas Gerais lideraram os registros estaduais mais recentes. Goiás aparece entre os cinco estados com maior número de mortes, reforçando a gravidade do cenário no Centro-Oeste.

Outro dado relevante é a interiorização da violência. Cerca de 67% dos assassinatos ocorreram fora das capitais, em municípios com menor presença do Estado, escassez de políticas públicas e redes de proteção frágeis. Isso amplia a vulnerabilidade de travestis e mulheres trans que vivem longe dos grandes centros urbanos.

Quem são as vítimas

O perfil das vítimas se repete ano após ano. A maioria são travestis e mulheres trans jovens, entre 18 e 35 anos. Pessoas negras e pardas aparecem de forma desproporcional entre os casos, evidenciando o cruzamento entre transfobia, racismo e desigualdade socioeconômica.

Grande parte dessas pessoas já vivia em situação de exclusão antes da violência extrema. Expulsão precoce de casa, evasão escolar, dificuldades de inserção no mercado formal de trabalho e acesso limitado à saúde compõem um ciclo que antecede o assassinato. A morte, nesses casos, é o ponto final de uma trajetória marcada por abandono institucional.

O outro lado da estatística: consumo massivo de pornografia trans

Enquanto os índices de violência seguem elevados, o Brasil também se destaca no consumo de pornografia trans. Desde 2016, o país aparece entre os líderes globais de buscas por esse tipo de conteúdo em plataformas como PornHub, XVideos e RedTube.

Relatórios recentes indicam que a pornografia trans cresceu cerca de 75% nas pesquisas globais, alcançando posições de destaque entre as categorias mais buscadas no mundo. O Brasil figura consistentemente entre os países com maior interesse proporcional, ao lado de Argentina e Colômbia.

Termos como “shemale”, “transgender”, “brazilian shemale”, “travesti” e “travesti brasileira” acumulam milhões de visualizações. Há registros de vídeos com mais de 1 milhão de acessos em plataformas menores, mais de 20 milhões no PornHub e quase 50 milhões no XVideos, evidenciando um consumo contínuo e massivo.

Enquanto dados divulgados pelo Pornhub Insights mostram que o Brasil ocupa posição de destaque no consumo global de pornografia. Em relatórios mais recentes, o país aparece na 4ª colocação mundial em volume de tráfego, atrás apenas de Estados Unidos, México e Filipinas.

Na América do Sul, o Brasil lidera com ampla margem. Segundo a plataforma, categorias como “Brasileira”, “anal”, “JOI (punheta guiada)” e “punheta trans” figuram entre as mais acessadas pelos usuários brasileiros.

Em 2024, termos relacionados a pessoas trans representaram cerca de 2% de todas as buscas globais em plataformas adultas, percentual considerado alto em um universo com centenas de categorias.

Quem consome esse conteúdo

Os dados demográficos ajudam a compreender melhor essa contradição. Homens são significativamente mais propensos a buscar pornografia trans do que mulheres. O interesse aumenta com a idade: usuários acima dos 55 anos apresentam maior probabilidade de consumo, enquanto jovens entre 18 e 24 anos demonstram menor incidência relativa.

Esse perfil desmonta a ideia de que o consumo estaria ligado apenas à curiosidade juvenil ou à experimentação recente. Trata-se, em grande parte, de homens adultos, socializados em modelos tradicionais de masculinidade, muitos deles inseridos em contextos conservadores, religiosos ou moralmente repressivos.

Especialistas apontam que esse consumo costuma ocorrer de forma solitária, secreta e dissociada da vida pública do indivíduo. O desejo, nesse contexto, não se converte em reconhecimento, respeito ou defesa de direitos, mas permanece confinado ao espaço privado, frequentemente acompanhado de culpa, vergonha e negação.

Desejo reprimido e violência simbólica

O paradoxo brasileiro se aprofunda quando se observa que o mesmo corpo trans que gera excitação em ambientes digitais é alvo de violência, humilhação e exclusão na vida real. Esse mecanismo é interpretado por pesquisadores como um efeito da repressão sexual combinada à transfobia estrutural.

Em uma sociedade onde identidade de gênero e sexualidade ainda são temas pouco discutidos em famílias e escolas, o desejo que foge da norma tende a ser empurrado para o campo do segredo. A pornografia funciona, nesse cenário, como válvula de escape. No entanto, ao invés de produzir empatia, esse consumo muitas vezes reforça a objetificação e a desumanização.

A pessoa trans é reduzida a um fetiche, não reconhecida como sujeito de direitos. Isso contribui para um ambiente social em que a violência se torna mais facilmente tolerada, invisibilizada ou naturalizada.

Impactos na saúde mental e no comportamento social

O consumo excessivo de pornografia, especialmente quando associado a padrões compulsivos, também gera impactos amplamente discutidos na área da saúde mental. Especialistas alertam para alterações nos circuitos de recompensa do cérebro, com dessensibilização progressiva e necessidade de estímulos cada vez mais intensos.

Esse processo pode afetar relações afetivas, expectativas sexuais e a forma como o outro é percebido. Em alguns casos, há relatos de dificuldade de estabelecer vínculos reais, insatisfação constante e transferência de fantasias irreais para relações consensuais, gerando conflitos e sofrimento.

O consumo massivo de pornografia não é neutro: ele molda desejos, expectativas e a forma como corpos são percebidos. Quando passa de estímulo ocasional a prática frequente, pode produzir um efeito de dissociação entre fantasia e realidade, no qual a excitação depende cada vez mais de imagens extremas, roteirizadas e distantes da experiência humana concreta. Esse deslocamento afeta relações afetivas, gera frustração sexual, reduz a intimidade e cria expectativas irreais sobre desempenho, disponibilidade e aparência dos parceiros.

Nesse cenário, corpos trans passam a ocupar um lugar específico e perigoso: o da hipersexualização constante. A pornografia trans, em vez de representar diversidade, frequentemente transforma identidades em fetiches, reduzindo pessoas a categorias de consumo e apagando sua existência para além do desejo sexual.

No caso específico da pornografia trans, o problema se agrava quando o consumo não vem acompanhado de reflexão, informação ou contato humanizado com pessoas trans reais, reforçando estigmas ao invés de quebrá-los. O paradoxo é evidente: o mesmo ambiente que consome intensamente esses corpos é o que, fora da tela, os submete à exclusão, à violência e à negação de humanidade.

Políticas públicas: avanços pontuais e lacunas profundas

Apesar do diagnóstico amplamente conhecido, o Brasil ainda carece de políticas públicas eficazes para o enfrentamento da transfobia. O dossiê da Antra aponta a ausência de ações integradas nas áreas de segurança pública, saúde, educação e assistência social.

O acesso à saúde integral, incluindo atenção básica, saúde mental e cuidados específicos para pessoas trans, permanece desigual, especialmente fora dos grandes centros urbanos. Programas de proteção, acolhimento e geração de renda são insuficientes para romper o ciclo de vulnerabilidade.

Além disso, a falta de dados oficiais produzidos pelo Estado faz com que organizações da sociedade civil assumam a responsabilidade de monitorar mortes e violências. Quando esse trabalho não é feito, as vítimas simplesmente desaparecem das estatísticas oficiais.

Invisibilidade como política não declarada

O contraste entre os números de consumo e os índices de violência expõe um modelo de invisibilidade seletiva. Pessoas trans são amplamente consumidas no imaginário sexual, mas excluídas das narrativas de cidadania, dignidade e pertencimento social.

Essa invisibilidade não é neutra. Ela produz morte, legitima a impunidade e sustenta uma lógica onde o desejo não gera responsabilidade. O Brasil, ao mesmo tempo em que figura entre os maiores mercados de pornografia trans do mundo, falha em garantir o direito básico à vida dessa população.

Um paradoxo que exige enfrentamento

Os dados não apontam para um problema individual, mas para um fenômeno social complexo, atravessado por moralismo, repressão, racismo, desigualdade e omissão estatal. Enfrentar essa contradição exige mais do que campanhas pontuais: demanda educação sexual, políticas públicas efetivas, proteção jurídica e reconhecimento pleno da humanidade das pessoas trans.

Enquanto o desejo seguir confinado ao segredo e os direitos permanecerem negados, o Brasil continuará ocupando posições vergonhosas nos rankings globais — tanto de consumo quanto de morte.

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