Goiás, 2 de março de 2026
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Túmulo com suástica revela história esquecida em Goiás

Pesquisa acadêmica investiga vida de austríaco enterrado em 1936 na antiga capital do estado.

Lápide de João Jessl no cemitério São Miguel, na Cidade de Goiás, com cruz suástica, símbolo do nazismo — Foto: Reprodução/ Dissertação de mestrado de Frederico Tadeu Gondim

No Cemitério São Miguel, na Cidade de Goiás, um túmulo se destaca entre os demais por exibir uma suástica gravada na lápide. O sepultado é Johann Jessl, austríaco que viveu na cidade entre as décadas de 1920 e 1930 e morreu aos 33 anos. As informações são do G1.

A presença do símbolo levou o historiador Frederico Tadeu Gondim, da Universidade Federal de Goiás, a desenvolver um estudo sobre o caso. A dissertação, apresentada em 2021, buscou contextualizar tanto o imigrante quanto o significado histórico da suástica naquele período.

Imigrante em busca de oportunidades

Jessl desembarcou no Brasil em dezembro de 1925, aos 22 anos, fugindo da crise econômica europeia no pós-Primeira Guerra Mundial. Chegou pelo porto de Santos e, alguns anos depois, estabeleceu-se na Cidade de Goiás.

Documentos indicam que ele viveu sozinho no município. Sua família enfrentou sucessivas perdas na Europa antes e após sua partida. O registro de óbito aponta que ele era viúvo, embora não existam provas documentais de casamento.

Especialista em eletricidade

Na antiga capital goiana, atuou como eletricista na primeira concessionária de energia elétrica local. Registros históricos mostram que sua fluência em alemão era estratégica para a empresa, que utilizava equipamentos e manuais importados.

Correspondências mencionam a relação com a Siemens-Schuckert, companhia alemã que mantinha atividades no Brasil. O historiador sustenta que a presença de Jessl no interior goiano está ligada à demanda por conhecimento técnico especializado.

Contexto histórico do símbolo

Segundo o pesquisador, mesmo que Jessl se identificasse com o nazismo, não há indícios de atuação política no Brasil. Ele estava distante do núcleo de ação do Partido Nazista no período em que viveu em Goiás.

O estudo ressalta que, nos anos 1930, o símbolo ainda não estava associado, para a sociedade local, ao extermínio promovido posteriormente pelo regime de Adolf Hitler. Originalmente presente em diferentes culturas e associado a ideias de prosperidade, o emblema foi apropriado politicamente pelo nazismo a partir de 1920.

Registro como alemão

Jessl morreu em 28 de dezembro de 1936, vítima de ataque cardíaco. O óbito foi comunicado por um colega de trabalho. Embora austríaco de nascimento, foi registrado como alemão, possivelmente por confusão administrativa ou identificação cultural.

Na lápide, a frase “Aqui descansa nosso João Jessl” sugere que ele mantinha vínculos afetivos com moradores da cidade. Para o historiador, essa combinação entre homenagem carinhosa e símbolo político cria uma tensão simbólica que ainda desperta questionamentos.

A pesquisa conclui que o caso permite refletir sobre memória, identidade e os significados atribuídos a símbolos históricos ao longo do tempo.

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