Goiás, 9 de agosto de 2026
Conecte-se conosco

Diversidade

Violência psicológica lidera relatos de brasileiras em relações

Estudo divulgado pelos 20 anos da Lei Maria da Penha revela diferença entre o número de mulheres que relatam agressões e homens que admitem violência

Foto: Freepick

A violência psicológica é a forma de agressão mais frequentemente relatada por mulheres que já tiveram relacionamentos com homens no Brasil. É o que aponta uma pesquisa que ouviu 1,5 mil pessoas e analisou a percepção da sociedade sobre a violência doméstica e familiar duas décadas após a criação da Lei Maria da Penha.

De acordo com o levantamento, 54% das mulheres que já se relacionaram com homens afirmam ter passado por algum tipo de violência. Entre os homens entrevistados que tiveram relacionamentos com mulheres, porém, apenas 11% reconhecem ter cometido agressões contra parceiras ou ex-parceiras.

O estudo foi produzido pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva, com apoio da Uber. As entrevistas foram realizadas em abril de 2026 com pessoas de 16 anos ou mais, em todas as regiões do país.

A violência psicológica foi citada por 42% das mulheres que relataram agressões. A violência física aparece na segunda posição, mencionada por 25%.

Impunidade aparece como maior entrave

A percepção de que os responsáveis pelas agressões não são punidos é apontada por 56% das entrevistadas como o principal fator que dificulta a denúncia de violência doméstica e familiar.

Outro problema destacado é a demora no andamento dos processos judiciais. Para 39% das mulheres ouvidas, a lentidão da Justiça também representa uma barreira para o enfrentamento dos casos.

A pesquisa identificou ainda uma percepção de tolerância social a determinados comportamentos. Para 77% das brasileiras, muitos homens não reconhecem algumas atitudes praticadas dentro dos relacionamentos como violência.

A omissão masculina diante de agressões cometidas por outros homens também é vista como um problema. Essa percepção é compartilhada por 82% das mulheres entrevistadas.

Em situações nas quais presenciam violência contra uma mulher, as mulheres dizem que tenderiam a procurar a polícia ou outras autoridades. Entre os homens, a intervenção direta aparece com maior frequência nas respostas.

A Delegacia da Mulher continua sendo o principal serviço de apoio conhecido pelas brasileiras, lembrado por 75% delas.

Mais de 1 milhão de atendimentos no Ligue 180

Os resultados do levantamento também dialogam com os dados oficiais do Ligue 180.

A Central de Atendimento à Mulher registrou mais de 1 milhão de atendimentos em 2025, um crescimento de 45% em comparação com o ano anterior. Foram 155 mil denúncias de violência ao longo do período, o equivalente a cerca de 425 registros por dia.

A avaliação das instituições responsáveis pela pesquisa é que os números reforçam a permanência da violência contra a mulher como um problema estrutural no país. O cenário inclui agressões físicas, psicológicas, sexuais e patrimoniais dentro de relações domésticas e familiares.

Sancionada em 7 de agosto de 2006, a Lei Maria da Penha é considerada um dos principais marcos jurídicos brasileiros para o enfrentamento da violência doméstica e familiar contra mulheres.

Lei é conhecida, mas não é vista como suficiente

A legislação alcançou amplo reconhecimento entre a população brasileira. De acordo com a pesquisa, praticamente todos os entrevistados já ouviram falar da Lei Maria da Penha e 49% das mulheres afirmam conhecer bem suas regras.

Mesmo com essa familiaridade, a maioria das brasileiras entende que a legislação precisa ser acompanhada de outras medidas. Para 82% das entrevistadas, a lei não é suficiente, por si só, para combater efetivamente a violência doméstica.

A percepção sobre os efeitos da legislação, entretanto, é positiva. Sete em cada 10 mulheres acreditam que a Lei Maria da Penha tem impacto concreto em suas vidas. Já 54% dizem se sentir mais protegidas por causa da existência da lei.

A legislação também teria ampliado a percepção sobre os riscos da violência: três em cada quatro brasileiras afirmam que passaram a ter mais consciência sobre essas situações.

Quando avaliam o período anterior à criação da lei, 81% das mulheres apontam que havia mais omissão diante dos casos e menos acolhimento às vítimas. Para 64%, as punições impostas aos agressores também eram mais brandas.

Maioria conhece violência física, mas desconhece proteção patrimonial

O conhecimento sobre os mecanismos previstos na legislação não é uniforme.

A violência física é reconhecida como uma das situações abrangidas pela Lei Maria da Penha por 88% das mulheres. No entanto, o percentual cai para 46% quando a pergunta trata da violência patrimonial.

As medidas protetivas de urgência são conhecidas por 83% das entrevistadas. Já as medidas relacionadas à proteção patrimonial são conhecidas por apenas 38%.

Para os institutos responsáveis pelo levantamento, os resultados mostram que a Lei Maria da Penha se tornou uma legislação consolidada e reconhecida como essencial para a proteção das mulheres. Ao mesmo tempo, os dados indicam que a lei não é considerada suficiente isoladamente para eliminar a violência doméstica.

O estudo também chama atenção para a naturalização de atitudes de controle e vigilância nos relacionamentos. A preocupação é reforçada pelo fato de a violência psicológica aparecer como a principal forma de agressão relatada pelas mulheres.

Clique para comentar

Envie seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

seis + doze =