Goiás, 27 de maio de 2026
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Ração contaminada matou centenas de cavalos; intoxicação não tem cura e casos terminam em eutanásia

Ministério Público acionou fabricante após mortes registradas em diferentes estados; veterinários afirmam que quadro causado pela substância é irreversível.

Dono de cavalos em Gaurulhos suspendeu o uso da ração, mas cerca de 30 animais já tinham consumido o produto. — Foto: Arquivo pessoal

A morte de centenas de cavalos após o consumo de ração contaminada levou o Ministério Público de São Paulo a entrar com uma ação civil pública contra a fabricante de nutrição animal Nutratta e o proprietário da empresa. O processo foi protocolado pela Promotoria de Justiça do Consumidor após o avanço das investigações sobre casos registrados em diferentes estados brasileiros.

Segundo o Ministério Público, a empresa teria utilizado resíduos de soja contaminados com alcaloides pirrolizidínicos na produção de rações destinadas a equinos, bovinos, suínos e aves.

Na ação, o MP pede o bloqueio de bens dos investigados, a proibição da retomada das atividades da empresa até o cumprimento das exigências do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), recall dos produtos contaminados, indenização aos consumidores afetados e pagamento de R$ 10 milhões por danos morais coletivos.

Laudos laboratoriais e exames feitos durante a investigação apontaram a presença das substâncias tóxicas em níveis até 2.600 vezes superiores ao limite considerado seguro para cavalos.

Até a última atualização da apuração, a Nutratta não havia se manifestado.

Mais de 600 mortes de animais

Dados reunidos pelo Ministério da Agricultura confirmam ao menos 238 mortes de equídeos em diferentes estados do país. Já um levantamento obtido em julho contabilizou 645 mortes de animais em pelo menos seis estados brasileiros: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Bahia e Alagoas.

Um dos casos mais graves ocorreu em Indaiatuba, no interior paulista, onde 29 cavalos morreram e cerca de 120 adoeceram.

Em Atalaia, em Alagoas, outras 79 mortes foram registradas após o consumo da ração investigada.

Também houve relatos de mortes e adoecimento em propriedades localizadas em Guarulhos, Campinas, Itu, Porto Feliz, Volta Redonda e Jaboticatubas.

Toxina afeta fígado e sistema nervoso

De acordo com o Ministério da Agricultura, a ração foi contaminada com monocrotalina, toxina encontrada em plantas do tipo crotalária.

A substância é considerada hepatotóxica, por atingir o fígado, e neurotóxica, por comprometer o sistema nervoso dos animais. O efeito pode ser fatal em equinos, bovinos e suínos.

Os primeiros casos de intoxicação surgiram em 21 de abril de 2025, no Rio de Janeiro. Dois dias depois, a primeira morte foi registrada em São Paulo.

Veterinários relataram que muitos animais estavam aparentemente saudáveis antes de começarem a apresentar sinais neurológicos graves, com rápida piora clínica.

Entre os sinais observados por criadores estão:

– desorientação
– alterações de comportamento
– mudanças no sono
– dificuldades de locomoção

Quando a intoxicação atinge o sistema nervoso, os animais perdem o controle dos movimentos, ficam com a cabeça baixa e podem se machucar durante as crises.

Intoxicação não tem cura

Especialistas ouvidos nas investigações apontam que não existe cura específica para o quadro provocado pela toxina.

O tratamento disponível é de suporte clínico, com uso de soro e antitóxicos, tentando reduzir os efeitos da intoxicação e controlar o sofrimento do animal.

Em casos mais graves, quando o comprometimento neurológico avança, os cavalos podem precisar ser submetidos à eutanásia.

Veterinários também orientam que animais que consumiram a ração passem por exames das enzimas hepáticas para identificação precoce de alterações no fígado e início do acompanhamento clínico.

Risco pode atingir cadeia alimentar humana

A ação do Ministério Público também aponta preocupação com possível impacto além dos animais.

Segundo a investigação, a mesma linha de produção utilizada na fabricação da ração destinada a equinos também produzia ração bovina, sem mecanismos eficazes para impedir contaminação cruzada.

Auditoras do Ministério da Agricultura alertaram para a possibilidade de transmissão dos alcaloides tóxicos por meio do leite, da carne e do fígado de animais alimentados com os produtos contaminados.

Para o MP, a empresa descumpriu normas sanitárias e de segurança alimentar ao utilizar matéria-prima contaminada na produção.

(*) As informações são do G1

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