Goiás, 17 de setembro de 2026
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Política

Ciência fica fora do debate eleitoral, alerta SBPC

Francilene Garcia critica foco da campanha em crise política e defende debate sobre desafios estratégicos do Brasil

© Valter Campanato/Agência Brasil

Enquanto a crise político-institucional e as denúncias relacionadas ao caso Master concentram o debate público, temas considerados estratégicos para o futuro do Brasil permanecem em segundo plano na campanha eleitoral. A avaliação é da presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Garcia.

Doutora em engenharia elétrica, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Francilene está à frente da SBPC desde 2025. Para ela, ciência, transição energética, mudanças climáticas, transformação digital, envelhecimento populacional e preparação para novas crises sanitárias deveriam ocupar espaço central nas discussões eleitorais.

Segundo a presidenta da entidade, a atual conjuntura criou uma falsa escolha entre cobrar a integridade das instituições e discutir um projeto de desenvolvimento para o país. Na avaliação dela, as duas agendas precisam ser tratadas conjuntamente.

Francilene também considera que a ciência ainda aparece de forma periférica nas campanhas. A SBPC criou o Observatório das Eleições com mais de uma centena de propostas de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento nacional e tenta aproximar as candidaturas de temas como mudanças climáticas, novas crises pandêmicas e transformação digital.

Ciência e desafios nacionais

A dirigente afirma que a ciência historicamente ocupa pouco espaço nas eleições. Segundo ela, esse cenário mudou parcialmente durante a pandemia de covid-19 e voltou a ganhar relevância diante de eventos como as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, além das queimadas no Centro-Oeste e dos episódios de seca e escassez hídrica no Norte e Nordeste.

Para Francilene, entretanto, a campanha atual não tem priorizado questões fundamentais para o desenvolvimento do país. Ela cita como exemplo a exploração de terras raras, minerais considerados importantes para a indústria ligada à transformação digital.

A estratégia de mobilização da SBPC também teria perdido força diante da crise. Pouco mais de uma centena de candidaturas aderiram às propostas do Observatório das Eleições, mas apenas uma delas é de âmbito federal no Executivo e nenhuma corresponde a candidatura ao governo estadual.

Alguns candidatos a deputado federal e ao Senado haviam assumido compromissos com as propostas, mas, segundo Francilene, esse movimento diminuiu nos últimos dias.

Instituições e investigação

A presidenta da SBPC afirma que a entidade não deve antecipar julgamentos sobre investigações em andamento. Para ela, os procedimentos precisam respeitar o rito processual, o direito de defesa e os protocolos previstos na Constituição Federal.

Francilene também critica o uso de vazamentos de informações para interesses específicos e avalia que a centralidade desses episódios no debate público acaba reduzindo o espaço destinado a outros assuntos relevantes.

A posição foi apresentada em uma manifestação conjunta da SBPC, da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e de outras entidades científicas.

Clima, saúde e inteligência artificial

Entre as prioridades apontadas pela SBPC está o enfrentamento dos efeitos da crise climática. A entidade defende a continuidade das discussões sobre o aquecimento do planeta e seus impactos no Brasil, nos biomas e na agroindústria.

Outro ponto é a preparação para novas crises sanitárias. Francilene afirma que novas pandemias deverão ocorrer, embora não seja possível determinar quando, e defende que o Brasil avalie a preparação do Sistema Único de Saúde (SUS), além de rever estratégias de imunização.

A transformação digital e os possíveis efeitos da inteligência artificial também são considerados temas centrais. Para a presidenta da SBPC, o país precisa discutir qual nível de soberania pretende construir para a próxima década.

Envelhecimento da população

O envelhecimento populacional é outro desafio destacado pela pesquisadora. A projeção apresentada por ela considera que, pouco mais de dez anos à frente, o Brasil estará próximo de ter mais pessoas acima dos 60 anos do que na faixa etária produtiva.

Nesse cenário, a SBPC questiona qual nível de soberania e autonomia o país terá construído e se seguirá concentrado na exportação de matérias-primas.

Para Francilene, a falta de participação da classe política nesses debates representa uma preocupação para a comunidade científica, especialmente diante das transformações que o Brasil terá de enfrentar nos próximos anos.

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