Goiás, 20 de setembro de 2026
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Diversidade

Brasil registra 45% de recusa familiar à doação de órgãos

Treinamento de profissionais busca melhorar o acolhimento e a comunicação com famílias de potenciais doadores

(Foto: Hugo)

A dificuldade de conversar sobre doação de órgãos no momento da morte de um familiar continua sendo um dos desafios para ampliar os transplantes no Brasil. Em 2025, 45% das famílias entrevistadas sobre a possibilidade de doação não deram autorização para o procedimento.

Os dados são do Registro Brasileiro de Transplantes, da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). O levantamento também mostra que a taxa de recusa não apresenta o mesmo comportamento em todo o país. Há diferenças entre estados e até entre hospitais localizados em uma mesma cidade.

A variação é apontada como um sinal de que a decisão familiar não está relacionada somente às características da população. A preparação das equipes e a maneira como os profissionais conduzem a comunicação durante o processo também podem ter impacto.

O presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), Cristiano Franke, explica que muitos pacientes já conversam previamente com seus familiares sobre a intenção de doar órgãos. Em situações assim, os parentes podem estar dispostos a respeitar essa vontade, mas uma abordagem inadequada no hospital pode dificultar a autorização.

O especialista destaca como problemas recorrentes a falta de informações completas, o uso de termos técnicos de difícil compreensão e conversas conduzidas de maneira pouco acolhedora. O momento, o local e a preparação da equipe para tratar de uma situação tão sensível também são considerados importantes.

Formação envolve diferentes áreas da saúde

Para tentar melhorar essa etapa do processo, a AMIB e o Ministério da Saúde promoveram uma série de capacitações destinadas a profissionais que trabalham com doação e transplantes.

O programa treinou 2.534 profissionais entre setembro de 2025 e agosto de 2026. A quantidade ficou 25% acima da meta estabelecida inicialmente, que previa a formação de 2 mil participantes.

Os cursos abordam desde a identificação de possíveis doadores e a confirmação da morte encefálica até a manutenção clínica necessária antes da retirada dos órgãos.

A preparação também inclui o Gerenciamento no Processo de Doação e Transplante (GPDT) e técnicas de Comunicação em Situações Críticas (CSC), com foco na condução das conversas com familiares.

Entre os participantes estão 933 médicos. Desse total, 473 foram capacitados especificamente para atuar na determinação da morte encefálica.

O programa também alcançou enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, administradores, farmacêuticos, odontólogos e biólogos. Um nutricionista e um pedagogo também participaram das capacitações.

Ao todo, foram promovidos 73 cursos, organizados em 23 módulos e realizados em 25 estados até agosto. Mais oito treinamentos estão previstos antes do encerramento do projeto, incluindo atividades neste mês em Fortaleza (CE) e Florianópolis (SC).

Medos influenciam decisão das famílias

A confirmação da morte encefálica pode ser difícil de compreender ou aceitar para familiares que acabaram de perder uma pessoa próxima. Esse é um dos fatores que podem interferir na autorização.

Além disso, crenças religiosas, dúvidas sobre a segurança do processo, desconhecimento da vontade do paciente e o medo de que o corpo sofra alterações após a retirada dos órgãos aparecem entre as razões relacionadas à recusa.

Outro obstáculo surge quando a família interpreta que a equipe está mais interessada nos órgãos que podem ser transplantados do que no cuidado com o paciente ou com os próprios parentes.

O temor de que o corpo fique deformado também precisa ser abordado pelos profissionais. As equipes responsáveis pelo processo explicam que, depois da retirada dos órgãos, o corpo é reconstituído e não deve apresentar deformações visíveis que impeçam os ritos funerários.

A capacitação busca justamente preparar os profissionais para esclarecer essas dúvidas de maneira compreensível e respeitosa.

Número de doadores cresceu em 2025

O Brasil registrou 15.940 potenciais doadores em 2025, conforme o Registro Brasileiro de Transplantes. Desses casos, 4.335 resultaram em doadores efetivos.

No mesmo período, 4.200 famílias recusaram a doação durante as entrevistas realizadas pelas equipes responsáveis. O número correspondeu a 45% do total de entrevistas.

Apesar das recusas, o país apresentou crescimento na taxa de doadores efetivos. Em 2025, foram registrados 20,3 doadores efetivos por milhão de habitantes, enquanto o índice de 2024 havia sido de 19,2.

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