Goiás, 5 de novembro de 2026
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Política

Derrota de Trump no Congresso pode frear ações dos EUA na América Latina

Avanço democrata deve limitar decisões do governo norte-americano e abrir espaço para acordo comercial com o Brasil, avaliam especialistas.

Reprodução/Instagram

A perda do controle republicano sobre a Câmara e o Senado dos Estados Unidos pode alterar os rumos da política externa do presidente Donald Trump, especialmente nas relações com a América Latina. A mudança no Congresso, após a votação de terça-feira (3), pode dificultar iniciativas de intervenção na região e aumentar a pressão para que Washington negocie um entendimento comercial com o Brasil.

A avaliação é de especialistas ouvidos pela Agência Brasil. Segundo a professora de Relações Internacionais Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a nova composição do Legislativo norte-americano poderá impor obstáculos às decisões da Casa Branca, principalmente na liberação de recursos para operações no exterior e na fiscalização de integrantes do governo.

Na avaliação da pesquisadora, a redução de verbas para ações de defesa pode atingir iniciativas como o Escudo das Américas, projeto apresentado pelo governo Trump sob a justificativa de combater cartéis de drogas. A iniciativa também é apontada por especialistas como um mecanismo de influência dos Estados Unidos sobre países latino-americanos.

A política externa de Trump tem buscado ampliar a presença de Washington no continente e conter a influência econômica chinesa na América Latina e no Caribe. Entre os episódios que marcaram essa estratégia estão a operação militar na Venezuela, em janeiro de 2026, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro, e o acordo posterior sobre o petróleo venezuelano.

Nesse entendimento, uma empresa ligada ao Pentágono passou a controlar uma parcela correspondente a 21% do petróleo do país, com parte da produção destinada à venda pelo preço de custo.

Escudo das Américas pode enfrentar restrições

A mudança no Congresso também pode repercutir em ações realizadas sob o Escudo das Américas. Na Bolívia, a iniciativa foi utilizada em uma operação que levou à prisão do procurador-geral Roger Mariaca, acusado de colaborar com o narcotráfico.

O caso provocou questionamentos porque Mariaca investigava o operador digital Fernando Cerimedo, ligado ao movimento político de Trump nos Estados Unidos. Cerimedo também atuou como assessor dos presidentes Javier Milei, da Argentina, e Rodrigo Paz, da Bolívia.

Para Camila Vidal, a presença de uma maioria democrata no Congresso pode reduzir o financiamento de iniciativas externas e ampliar a fiscalização sobre a atuação do Executivo. A professora considera que essas limitações podem diminuir o alcance da política de intervenção norte-americana na região.

Derrota eleitoral pode favorecer negociação com o Brasil

Além das consequências geopolíticas, o resultado da eleição legislativa pode influenciar a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos. O governo brasileiro tem interpretado as tarifas impostas por Trump como uma medida de caráter político, com possível interferência no cenário eleitoral brasileiro.

O doutor em Ciência Política Juliano Machado Pires avalia que a derrota republicana pode estimular a Casa Branca a buscar um acordo com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo ele, a necessidade de apresentar resultados econômicos internamente pode tornar menos conveniente manter o impasse comercial com o Brasil.

O especialista também aponta que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, responsável pela política externa do governo Trump, deverá dedicar mais tempo a prestar esclarecimentos ao Congresso, agora sob maioria democrata.

Entre os temas que podem entrar em uma negociação estão as tarifas comerciais, o acesso a terras raras e investimentos em data centers. Para Juliano, um entendimento com o governo brasileiro atenderia a interesses dos dois países.

Apesar dessa possibilidade, o cientista político não descarta que Trump tente provocar novos episódios de repercussão internacional para deslocar a atenção dos problemas domésticos nos Estados Unidos.

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